

A Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), entidade científica fundada em 1948 e referência histórica no enfrentamento da hanseníase no Brasil, emitiu Nota de Desagravo devido às recentes declarações de médicos e membros do Conselho Federal de Medicina (CFM), inclusive de ex-ministro da Saúde, veiculadas em vídeo nas redes sociais, que criticam o aumento de diagnósticos de hanseníase no país.
Para a SBH, tais manifestações não constituem análise técnica, mas grave desinformação, uma vez que o Brasil – e vários outros países – convivem com endemia oculta da doença e o aumento de diagnósticos é urgente. Ao distorcer dados epidemiológicos e empregar uma doença historicamente marcada por estigma, exclusão social e violações de direitos humanos como retórica ideológica, essas falas colocam em risco a saúde pública e a dignidade das pessoas acometidas.
“Usar a hanseníase como arma política é irresponsável. Trata-se de um ataque direto às pessoas que vivem com a doença, aos profissionais que atuam no SUS e a décadas de construção científica e sanitária no Brasil”, afirma Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da SBH.
A SBH reforça que a pandemia de COVID-19 provocou, em todo o mundo, uma queda artificial na detecção de múltiplas doenças, incluindo hanseníase, em razão da redução de atendimentos presenciais, do redirecionamento das equipes de saúde, da suspensão de ações de campo e do receio da população em buscar os serviços. Esse fenômeno está amplamente documentado por organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde.
Nesse contexto, comparar números de hanseníase antes, durante e após a pandemia como se fossem séries homogêneas, sem qualquer ajuste metodológico, constitui grave erro técnico. Apresentar a queda de notificações nesse período como “sucesso histórico” não é ciência, mas manipulação de dados, pois gera falsa sensação de controle e compromete o enfrentamento real da doença.
O aumento atual de casos notificados reflete a retomada do funcionamento do sistema de saúde, com reativação da busca ativa, avaliação de contatos, reorganização dos serviços e enfrentamento do represamento diagnóstico acumulado. Em epidemiologia, esse comportamento é esperado: quando se amplia o acesso e a vigilância, mais casos ocultos são identificados. Diagnosticar mais é condição indispensável para interromper a cadeia de transmissão do bacilo.
A SBH defende maior celeridade de gestores e políticas públicas para que os indicadores de hanseníase retornem aos patamares pré-pandemia, especialmente considerando que outras doenças já demonstraram recuperação mais rápida da capacidade de detecção. Utilizar esse processo de retomada para atacar governos — de qualquer espectro político — significa desinformar a população e reforçar estigmas históricos.
“A hanseníase está associada a determinantes sociais da saúde, como pobreza, saneamento precário, moradia inadequada e acesso limitado à atenção primária. Não é marcador moral, tampouco instrumento de disputa política”, defende Cipriani Frade, que também é professor titular da Faculdade de Medicina-USP Ribeirão Preto.
A SBH chama atenção para a incoerência de setores que promovem ruído político sobre a hanseníase, mas permanecem silenciosos diante de problemas estruturais da formação médica no país uma vez que a hanseníase é uma doença complexa, sistêmica e negligenciada, que exige capacitação adequada, atuação multiprofissional e compromisso institucional contínuo.
“Hansenologistas, universidades, centros de pesquisa e a SBH e sua Diretoria têm colocado o Brasil em posição de destaque em pesquisa, capacitação de serviços, estratégias de rastreio, novos esquemas terapêuticos e combate ao preconceito”, destaca Frade. Ele lembra que a SBH mantém há uma década a campanha educativa Todos contra a Hanseníase, dedicada ao diálogo entre ciência e sociedade — trabalho que exige cada vez mais esforço em virtude da disseminação de desinformação.
Em nota de desagravo, a SBH alerta que eliminar a hanseníase apenas “no papel”, sem investimento em busca ativa, diagnóstico precoce, reabilitação, redes assistenciais e formação especializada, significa optar pela invisibilização da doença. E explica que reduzir o problema ao custo do medicamento — doado pela OMS — ignora o impacto humano, social e econômico do diagnóstico tardio: sequelas permanentes, exclusão do mercado de trabalho, sofrimento psíquico e elevados gastos previdenciários, que já consumiram bilhões de reais no país.
A sociedade médica reafirma seu compromisso com a ciência, a ética médica, a defesa do SUS e das pessoas afetadas pela hanseníase, e expressa seu desagravo público frente a declarações que distorcem dados, alimentam estigmas e colocam narrativas políticas acima da saúde da população brasileira.
Sobre a Sociedade Brasileira de Hansenologia
Fundada em 1948, a SBH é uma entidade científica dedicada ao estudo, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação da hanseníase, atuando na formação profissional do médico especialista, na produção de conhecimento e na defesa de políticas públicas baseadas em evidências.
Leia a Nota de Desagravo na íntegra
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