
A hanseníase em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, deixou de ser invisível — e os dados mais recentes mostram um cenário que desafia antigos estigmas da doença no Brasil: diferentemente da percepção histórica de que a hanseníase estaria restrita a populações socialmente vulneráveis, o município vem registrando casos distribuídos de forma praticamente equivalente em todas as regiões da cidade, incluindo bairros da periferia e áreas de maior poder aquisitivo da zona sul.
A constatação faz parte da análise do mais recente relatório da Vigilância Epidemiológica da Prefeitura Municipal feita pelo hansenologista Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) e coordenador do Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária com Ênfase em Hanseníase do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP). O documento revela uma “endemia oculta de hanseníase” sustentada por décadas de subdiagnóstico e diagnóstico tardio.
Segundo Cipriani Frade, Ribeirão Preto se tornou um exemplo nacional ao investir em estratégias científicas permanentes de busca ativa de casos e treinamento para equipes de saúde, além de fazer a descentralização do atendimento para a Atenção Primária à Saúde (APS) com um trabalho criterioso da Vigilância Epidemiológica do município que atravessa gestões.
“O dado mais impactante é mostrar que a hanseníase não está restrita às populações desfavorecidas. Desde 2020, os diagnósticos aparecem em todas as regiões da cidade de forma praticamente equivalente, desmontando um estigma histórico que ainda dificulta o reconhecimento precoce da doença”, afirma Frade.
De média endemia para alta endemia
O avanço do diagnóstico começou a ganhar força em 2018, quando a Secretaria Municipal de Saúde passou a adotar o Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH), instrumento composto por 14 perguntas sobre sintomas neurológicos e dermatológicos associados à doença. A ferramenta passou a ser aplicada pelos agentes comunitários de saúde que vêm recebendo treinamentos continuados para as equipes da rede pública.
Desde então, os indicadores epidemiológicos mudaram drasticamente. Ribeirão Preto saiu da condição de média endemia em 2016 para alta endemia entre 2017 e 2020, atingindo nível de muito alta endemia em 2021 — inclusive durante a pandemia de Covid-19 — mantendo-se em alta endemia até 2025. Para os especialistas, o aumento não significa piora recente da transmissão, mas sim maior capacidade do sistema de saúde em encontrar pacientes antes invisíveis às estatísticas oficiais.
Outro dado considerado alarmante é que mais de 95% dos casos diagnosticados desde 2019 foram classificados como multibacilares, forma associada a maior carga infecciosa e diagnóstico tardio. Além disso, mais de 60% dos pacientes apresentavam grau I ou II de deficiência física no momento do diagnóstico, indicando comprometimento neurológico já instalado – o diagnóstico precoce pode evitar ou reverter sequelas.
A transmissão ativa da doença também aparece entre crianças e adolescentes. Entre 2018 e 2025, a taxa média de detecção em menores de 15 anos foi de 3,64 casos por 100 mil habitantes, índice classificado internacionalmente como de alta endemia e considerado um dos principais marcadores de transmissão recente da hanseníase.
Mudanças no modelo assistencial em Ribeirão Preto
Os dados mostram ainda uma mudança estrutural no modelo assistencial do município. Desde 2018, a Atenção Primária passou a assumir progressivamente o diagnóstico de novos casos, reduzindo a dependência de serviços secundários e terciários. A estratégia inclui treinamento contínuo, matriciamento por especialistas e apoio às equipes da rede básica.
“Ribeirão Preto demonstra que enfrentar a hanseníase exige abandonar a falsa ideia de eliminação da doença e investir em diagnóstico ativo, capacitação profissional e vigilância contínua. Quando se procura adequadamente, a doença aparece — inclusive em regiões antes consideradas fora do perfil epidemiológico clássico”, destaca Frade, que também é professor titular da USP.
O município também chama atenção por registrar notificações provenientes da rede privada de saúde, situação ainda incomum no país e considerada indicativa de maior integração da vigilância epidemiológica local.
Apesar dos avanços, a SBH alerta que ainda há desafios importantes, especialmente na avaliação de contatos domiciliares e no alcance das metas de cura, atualmente em torno de 85%, abaixo do índice de 90% recomendado pelos programas de controle.
Para a SBH, a experiência de Ribeirão Preto reforça um debate crescente entre especialistas brasileiros: o Brasil ainda convive com uma grande endemia oculta de hanseníase, mascarada pelo subdiagnóstico em diversas regiões do país.
Conheça as datas, resultados e outras informações sobre as provas realizadas pela SBH.
Aqui você encontra nossos editais e convocações para associados. Acompanhe essas e outras informações.
Conheça as açoes e campanhas que realizamos por todo o país para levar conhecimento sobre a Hanseníase.
Rodovia Comandante Joao Ribeiro de Barros Km 225/226
Bauru - SP -
CEP: 17034-971
secretariasbh@gmail.com