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Após quatro décadas sem inovação no tratamento da hanseníase, Pernambuco lidera iniciativa que pode mudar o cenário mundial da doença

Publicação: 04/08/2026

Há mais de 40 anos, pessoas diagnosticadas com hanseníase em praticamente todo o mundo recebem o mesmo tratamento: a poliquimioterapia (PQT), combinação de antibióticos distribuída gratuitamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora tenha representado um enorme avanço quando foi implantada, a terapia nunca passou por uma atualização e especialistas denunciam índices preocupantes de recidiva (volta da doença tempos depois da alta médica) e falência de tratamento (pacientes com bacilos vivos ao término do tratamento).

Agora, Pernambuco passa a liderar uma iniciativa que pode representar um dos maiores avanços científicos da área nas últimas décadas, afinal, o Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo em taxa de detecção de hanseníase (percentual de novos casos a cada grupo de 100 mil habitantes).

O Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco Governador Miguel Arraes (LAFEPE), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Complexo Econômico Industrial da Saúde (iCEIS), e a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) firmaram um acordo de cooperação técnico-científica para desenvolver pesquisas voltadas à criação de novos medicamentos e tecnologias para o tratamento da hanseníase.

O acordo reúne, pela primeira vez, uma indústria farmacêutica pública, um centro de excelência em pesquisa e a principal sociedade científica brasileira dedicada exclusivamente à hanseníase.

Entre as ações previstas estão pesquisas farmacêuticas, estudos pré-clínicos e clínicos, desenvolvimento de novas formulações, produção de conhecimento científico, capacitação de profissionais de saúde e elaboração de projetos de inovação capazes de atrair investimentos nacionais e internacionais.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, Marco Andrey Cipriani Frade, trata-se de uma oportunidade histórica para enfrentar um problema que há décadas permanece praticamente inalterado, sem políticas públicas robustas para eliminar a hanseníase como problema de saúde pública.

"A hanseníase foi classificada como doença negligenciada justamente porque deixou de despertar interesse da indústria farmacêutica internacional. O tratamento atual foi um divisor de águas nos anos 1980, mas desde então não houve inovação. A doença está em todas as camadas sociais da população, porém, quem mais sofre são grupos de pessoas que vivem em estado de vulnerabilidade social e não podem pagar por tratamentos e drogas não oferecidas pelo SUS."

Segundo Frade, o protagonismo brasileiro pode beneficiar diversos países. "O Brasil registra uma das maiores cargas de hanseníase do planeta e reúne alguns dos principais especialistas mundiais na doença. Quando conseguimos integrar pesquisa científica, produção farmacêutica e assistência clínica, criamos condições para desenvolver soluções que poderão beneficiar não apenas o SUS, mas programas de controle da hanseníase em diversos países endêmicos."

Muito além do medicamento

Para os especialistas, desenvolver novos tratamentos significa enfrentar um problema frequentemente invisível: o preconceito. Mesmo sendo uma doença curável, a hanseníase continua associada a um forte estigma social.

Pacientes frequentemente escondem o diagnóstico da própria família, evitam procurar atendimento e, em muitos casos, interrompem o tratamento por medo de discriminação no ambiente de trabalho ou até de perder o emprego, sem contar crianças afastadas da escola pelo diagnóstico da doença, sendo que em tratamento o paciente não transmite o bacilo, o que torna injustificável qualquer tipo de isolamento ou exclusão social.

A hanseníase pode evoluir lentamente durante anos sem que o paciente reconheça os sintomas. Quando finalmente procura atendimento, muitos já apresentam comprometimento de nervos periféricos, perda de sensibilidade, incapacidades físicas permanentes e sequelas que poderiam ter sido evitadas.

Para o professor José Lamartine Soares Sobrinho, coordenador técnico do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Complexo Econômico Industrial da Saúde (iCEIS/UFPE), a iniciativa também representa um avanço estratégico para a para a indústria brasileira. “Temos parque industrial nacional que pode abastecer não apenas o SUS, mas todos os países que ainda têm a hanseníase como problema de saúde pública.”

Pernambuco na linha de frente

O acordo estabelece uma cooperação de longo prazo para desenvolvimento científico, compartilhamento de conhecimento, realização de pesquisas, capacitação de profissionais, organização de eventos técnicos e elaboração de projetos voltados à inovação farmacêutica.

Mais do que um compromisso institucional, a iniciativa coloca Pernambuco no centro de um movimento que pode redefinir o tratamento da hanseníase nas próximas décadas.

Enquanto grande parte do mundo ainda utiliza medicamentos desenvolvidos no século passado, pesquisadores brasileiros iniciam um esforço para construir uma nova geração de terapias, capaz de oferecer tratamentos mais eficazes, reduzir recidivas, enfrentar possíveis resistências bacterianas e melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas atingidas por uma das doenças mais negligenciadas da saúde pública mundial.

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