
Este relatório técnico apresenta o posicionamento institucional da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) acerca da proposta de incorporação do teste de biologia molecular para o diagnóstico da hanseníase, conforme Relatório Preliminar da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC), referente à Consulta Pública nº 22/2026.
A SBH manifesta-se favoravelmente à incorporação do teste de biologia molecular (qPCR) para o diagnóstico da hanseníase no SUS, considerando a robustez da evidência acumulada ao longo de décadas. No entanto, aponta ressalvas críticas quanto a aspectos que, se mantidos, poderão limitar substancialmente a efetividade da tecnologia na prática assistencial:
1. definição excessivamente restritiva do limite de Cycle Threshold (Ct);
2. uso impreciso da terminologia quanto à natureza da tecnologia (qualitativa vs. quantitativa);
3. restrição injustificada do exame a “pacientes não contactantes”;
4. barreiras de acesso impostas pela exigência de exame histopatológico prévio;
5. não inclusão do raspado intradérmico como matriz elegível;
6. classificação demasiadamente conservadora da certeza da evidência científica sobre qPCR para Mycobacterium leprae.
A hanseníase é uma das doenças mais negligenciadas no mundo, com curso crônico, evolução lenta e período de incubação que pode ultrapassar 30 anos. A biologia singular do Mycobacterium leprae – bacilo não cultivável in vitro – impõe limitações importantes para a produção de evidências nos mesmos moldes adotados para doenças agudas e de evolução rápida.
A técnica de Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) para detecção do DNA de M. leprae foi estabelecida no final da década de 1980, demonstrando elevada sensibilidade e especificidade desde os estudos pioneiros (WOODS; COLE, 1989; HARTSKEERL et al., 1989). No início da década de 1990, o uso da PCR em biópsias de pele já se encontrava validado para o diagnóstico e para o monitoramento da resposta terapêutica (WILLIAMS et al., 1990; WILLIAMS et al., 1992). Desde 1993, o uso de sequências repetitivas, em especial o alvo RLEP, consolidou-se internacionalmente como padrão molecular de alta sensibilidade (SANTOS et al., 1993).
Pesquisadores brasileiros tiveram papel central nesse processo de validação (GOULART et al., 2007; MARTINEZ et al., 2011; BERNARDES-FILHO et al., 2021). Estudos recentes em áreas hiperendêmicas reforçam a relevância da biologia molecular para:
O Relatório Preliminar estabelece como critério de positividade apenas resultados até 35 ciclos de amplificação. A SBH considera esse limite excessivamente restritivo e desalinhado tanto com a literatura recente quanto com a prática dos serviços de referência.
Evidências contemporâneas e a experiência clínica de especialistas demonstram que:
Recomendação da SBH:
O Relatório Preliminar caracteriza o exame como “detecção molecular qualitativa”. Essa definição é tecnicamente incompleta e reduz o potencial clínico da tecnologia.
A PCR em tempo real (qPCR) é, por natureza, uma técnica quantitativa ou semi‑quantitativa, pois possibilita estimar a carga bacilar a partir dos valores de Ct (DIANA; HARISH, 2024). Essa dimensão quantitativa tem implicações diretas na prática clínica:
Restringir o qPCR ao status de teste meramente “qualitativo” (presença/ausência) implica desperdiçar uma funcionalidade já consolidada cientificamente e clinicamente útil.
Recomendação da SBH:
O Relatório Preliminar propõe restringir o uso do qPCR a pacientes não contactantes de casos confirmados. Tal restrição é epidemiologicamente inadequada e conceitualmente imprecisa.
Do ponto de vista epidemiológico:
Do ponto de vista conceitual:
Recomendação da SBH:
“Auxílio ao diagnóstico da hanseníase em indivíduos com suspeita clínica, incluindo contactantes e não contactantes, especialmente em casos com baciloscopia negativa, formas paucibacilares ou dúvida diagnóstica.”
Essa formulação alinha-se à prática clínica, à epidemiologia da doença e ao objetivo de ampliar o diagnóstico precoce.
A exigência de exame histopatológico negativo ou inconclusivo como pré-requisito para realização do qPCR representa um obstáculo relevante à equidade e à efetividade da incorporação no SUS.
Entre os principais problemas desta exigência, destacam-se:
Recomendação da SBH:
O Relatório Preliminar enfatiza o uso de biópsias de pele ou nervo como amostras-padrão para o qPCR, sem contemplar adequadamente o raspado intradérmico.
No SUS, o raspado intradérmico de lóbulos auriculares e cotovelos é procedimento consolidado na rotina de baciloscopia em hanseníase. Evidências apontam que:
Recomendação da SBH:
O Relatório Preliminar classifica a certeza da evidência como baixa ou muito baixa, com base no método GRADE, a partir de número limitado de estudos incluídos na revisão. A SBH entende que essa classificação não reflete adequadamente o conjunto de evidências disponíveis.
Devem ser considerados:
Em doenças negligenciadas, a ausência de grandes ensaios randomizados decorre da própria negligência histórica, e não de fragilidade intrínseca da tecnologia. No caso específico do alvo RLEP, sua alta especificidade e desempenho diagnóstico são hoje amplamente reconhecidos (BRAET et al., 2018) e corroborados por uma série de estudos, incluindo pesquisas brasileiras.
Recomendação da SBH:
A SBH reafirma seu posicionamento favorável à incorporação do qPCR para diagnóstico da hanseníase no SUS, com base em evidência científica robusta e na experiência acumulada dos serviços especializados. Entretanto, enfatiza que o impacto real dessa incorporação dependerá de ajustes cruciais na forma de normatização da tecnologia.
Em síntese, a SBH recomenda:
Tais ajustes são fundamentais para que a decisão da CONITEC represente um avanço concreto e efetivo na política nacional de controle da hanseníase, com impacto real na redução do diagnóstico tardio, das incapacidades e da transmissão da doença no país.
ARAUJO, S. et al. Molecular Evidence for the Aerial Route of Infection of Mycobacterium leprae and the Role of Asymptomatic Carriers in the Persistence of Leprosy. Clin Infect Dis, v. 63, n. 11, p. 1412-1420, 2016.
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BERNARDES FILHO, F. et al. Active search strategies, clinicoimmunobiological determinants and training for implementation research confirm hidden endemic leprosy in inner São Paulo, Brazil. PLoS Negl Trop Dis, v. 15, n. 6, p. e0009495, 2021.
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SEVILHA-SANTOS, L. et al. Standardization of SYBR Green-Based Real-Time PCR Through the Evaluation of Different Thresholds for Different Skin Layers: An Accuracy Study. Front Microbiol, v. 12, p. 758222, 2021.
TAHIR, H. et al. Molecular Detection of Mycobacterium leprae in Household Contacts of Leprosy Patients in Barru Regency. Int J Mycobacteriol, v. 15, n. 1, p. 26-30, 2026.
WANG, Z. et al. A rapid and sensitive extraction-free HiFi-LAMP assay for detecting Mycobacterium leprae. Int J Infect Dis, v. 152, p. 107835, 2025.
WILLIAMS, D. L. et al. Detection of Mycobacterium leprae and the potential for monitoring antileprosy drug therapy directly from skin biopsies by PCR. Mol Cell Probes, v. 6, n. 5, p. 401-410, 1992.
WOODS, S. A.; COLE, S. T. A rapid method for the detection of potentially viable Mycobacterium leprae in human biopsies: a novel application of PCR. FEMS Microbiol Lett, v. 53, n. 3, p. 305-309, 1989.
Para participar da Consulta Pública nº 22/2026 - Teste de detecção molecular qualitativa do Mycobacterium leprae para auxiliar o diagnóstico de hanseníase em pacientes com lesões suspeitas e baciloscopia negativa, clique no link abaixo e preencha o formulário com a integra ou partes do texto que a SBH oferta para a sociedade.
https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/consultas-publicas-conitec/f/2243/
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